segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Polêmica digital

Reportagem produzida com Fernanda Santos e publicada no site da Cultiva.

03/07/2007

Polêmica digital
Governo anuncia a implantação da TV digital no Brasil até o fim do ano, mas o sistema ainda é alvo de críticas por parte de especialistas e movimentos sociais

A adoção da TV digital (TVD) foi tema de um debate quente na última quinta-feira (28/06), durante o lançamento, em Belo Horizonte, da cartilha TV Digital no Brasil. O evento contou com a participação do Ministro das Comunicações, Hélio Costa, do professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), Marcos Dantas, e da professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Regina Mota, além de outros especialistas.

Segundo o ministro Hélio Costa, a implantação desse novo modelo de televisão está prevista para até o final de deste ano, na capital paulista. Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza e Salvador têm previsão de inaugurar o novo sistema até o fim de 2008; e para as demais capitais, a previsão é até o final de 2009. Contudo, vários aspectos dessa implantação ainda são criticados por especialistas e movimentos sociais envolvidos com a questão. Um deles é a prioridade dada às capitais em detrimento das cidades do interior. De acordo com Regina Mota, isso pode deixar os municípios menores e mais afastados dos grandes centros ainda mais distantes da tecnologia. “A implantação deveria ser feita em conjunto por todo o Brasil, simultaneamente nas capitais e no interior”, afirma a professora.

Outra questão que ainda gera polêmica é o padrão de TVD adotado pelo governo brasileiro. Segundo Marcos Dantas, que é responsável pelo texto da cartilha, uma pesquisa para desenvolver um sistema brasileiro de TV digital foi iniciada no país, porém a falta de incentivo ao setor de engenharia, que segundo ele “vem sendo massacrado desde 1988”, fez com que o Brasil tivesse que optar por um padrão estrangeiro. “O Brasil tinha empresas e laboratórios de tecnologia muito fortes, que conseguiam competir com o mundo todo. Mas, por causa de privatizações mal feitas, realizadas sem se preocupar com o patrimônio do país, o setor foi destruído”, afirmou.

O argumento apresentado por Hélio Costa para justificar a escolha do modelo oriental de TVD foi o fato de o Japão ser o único país a mostrar algum interesse em ceder a tecnologia. “Tentamos conversar com os EUA, mas nem tivemos resposta. Na Europa não foi diferente, os países ficaram nos enrolando e não deram retorno concreto. Já os japoneses foram muito solícitos e atenciosos”, disse o ministro. Ele afirmou ainda que o fato de o sistema utilizar tecnologia japonesa não quer dizer que o país tenha adotado o padrão japonês de TV digital. Segundo Hélio Costa, “o modelo de TVD que será implantado no Brasil é único”. De acordo com o secretário de Telecomunicações, Roberto Pinto Martins, “o modelo brasileiro terá somente um chip, chamado modulador, japonês. O resto foi pensado na melhor adaptação do povo”.

A conversão do sistema se dará por um equipamento de recepção e codificação chamado UDR. Trata-se de uma caixa semelhante às usadas para receber sinal de TV por satélite ou por antena parabólica. O preço dessas caixinhas deverá variar entre 400 e mil Reais, de acordo com os recursos do aparelho. De acordo com o ministro, o governo disponibilizará caixinhas a preços mais baixos, entre 150 e 200 Reais que, segundo Hélio Costa, vão ser financiadas pelo Banco Popular do Brasil. Porém, além de ainda possuírem um valor alto para o padrão brasileiro, esses aparelhos não contarão com o recurso considerado mais inovador do novo sistema: a interatividade.

Regina Mota aponta ainda outra questão. Com a implantação da TVD, cada canal poderá se transformar em quatro, o que, segundo o ministro, vai possibilitar a criação de canais produzidos pela sociedade. Porém, de acordo com a professora, não há uma política pública no sentido de possibilitar o acesso aos meios de produção. “Como a população irá produzir um programa de qualidade sem nenhum recurso? Sem falar na competição no meio, onde elas serão facilmente derrotadas”, criticou.

Esse questionamento foi feito também por uma representante da Associação Imagem Comunitária (AIC), uma ONG de Belo Horizonte, que atua na promoção do acesso público aos meios de comunicação. Além de representantes de movimentos sociais, professores e estudantes de comunicação social e engenharia participaram do debate. E foram da platéia as principais críticas, principalmente, quanto à falta de políticas públicas que definam a implantação da TVD. Hélio Costa foi indagado várias vezes sobre essa questão e recebeu muitos pedidos de ampliação do debate sobre a adoção da nova tecnologia. Por fim, o ministro se exaltou e, durante suas considerações finais citou uma fábula. Hélio Costa terminou a história dizendo que “tem gente que só matando”, numa referência aos críticos.

TV Digital no Brasil

A cartilha TV Digital no Brasil é uma iniciativa do Sindicato de Engenheiros no Estado de Minas Gerais (Senge-MG) em parceria com o Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Minas Gerais (Crea-MG). Com formato simples e acessível, a publicação é voltada a profissionais do setor de tecnologia, formadores de opinião e interessados em geral. A primeira edição é de três mil exemplares e algumas unidades foram distribuídas aos que compareceram ao evento. A publicação está disponível também na sede do Senge-MG e em uma versão em PDF, disponível on-line.

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